Elen Sallaberry – Até que ponto você acredita que a web potencializou o processo de fetichização da velocidade?
Sylvia Moretzsohn – Eu gostaria de responder a essa pergunta lembrando o que tantos autores, em épocas passadas e em outras nem tão distantes assim, disseram a respeito do elogio da tecnologia como propulsora das mudanças sociais, quando de fato essas mudanças têm a ver com as lutas sociais e a relação de forças que existe na sociedade. Então, magnificada do jeito que é (e sempre foi, desde o início), a web contribui radicalmente para esse processo de fetichização da velocidade. Mas não precisava ser assim: a web abre enormes perspectivas para a comunicação. O problema é o enfoque, o entusiasmo, o deslumbramento diante desse suposto mundo novo, esquecendo-se das forças que o controlam. Basta ver os milionários negócios em torno dos grandes sites e o interesse dos grandes investidores, como Murdoch. Basta comparar com o que foi o entusiasmo da "era do rádio", nos seus primórdios, nos anos 20 do século passado.
ES – A crescente valorização da informação por sua intantaniedade é irreversível?
SM – Não, não acho que nada seja irreversível. Mas esta é uma tendência muito presente nos dias de hoje, e que resulta de uma tendência histórica do jornalismo, pelo menos desde que se tornou atividade industrial, em meados do século 19. Reverter essa tendência depende da reversão das bases em que se organizam as sociedades, porque aí será possível cultivar outros valores, diferentes dos de hoje, em que impera a irracionalidade muito bem sintetizada na situação da indústria automobilística: sabemos que, se o ideal de felicidade dos indivíduos é a conquista de seu carrinho particular, então só poderemos ter um monumental engarrafamento e uma crescente poluição. E agora, diante da crise econômica, que afeta especialmente essa indústria, a opção é por mais investimentos no setor, apesar das consequências nefastas, inclusive e sobretudo do ponto de vista ecológico.
ES – É possível conciliar rapidez e precisão nas notícias?
SM – É difícil. Notícias, por definição, exigem agilidade, mas será sempre necessário adotar determinados procedimentos sem os quais os riscos do erro serão enormes. Então a precisão, a apuração e algum tempo para a contextualização adequada para a divulgação de uma determinada notícia teriam de prevalecer em relação à velocidade. Mas não é fácil adotar esses pressupostos (que entretanto são básicos para o exercício do jornalismo), dadas as condições da concorrência e dado, principalmente, o fato muito objetivo da "concorrência" dos tais "cidadãos" equivocadamente confundidos com jornalistas. Este me parece o nó principal da questão ética hoje: como respeitar determinados princípios se qualquer um pode expor qualquer coisa em "tempo real"?
ES – A existência, cada vez mais presente, de cidadãos-repórter, isto é, pessoas que divulgam notícias na Internet sem formação para tal, pode prejudicar ainda mais a credibilidade das informações ali encontradas?
SM – Eu acho que o equívoco começa por essa denominação de "cidadão-repórter". Isso tem a ver com uma determinada concepção do que seja jornalismo. Isso que aquele coreano diz para justificar o Ohmynews é um absurdo: o fato de todos nós recebermos e transmitirmos inúmeras informações todos os dias não faz de nós repórteres, porque repórteres são mediadores socialmente reconhecidos (isso tem a ver com a idéia de quarto poder, que eu abordo nesse meu segundo livro). Entretanto, a questão da credibilidade não me parece que seja afetada por esse fenômeno, porque o público reconhece quem são os meios de referência. O problema é outro: é esse estímulo desmesurado à "participação" dos tais cidadãos, que frequentemente plantam fraudes nos sites de referência, como ocorreu com o uol no dia do acidente com o avião da TAM, que postou uma foto anunciada como o único documento de uma pessoa a saltar do prédio da empresa em chamas, quando se tratava de uma montagem.
ES – Você acredita que é função do jornalista ir contra o processo de desqualificação das notícias?
SM – Bom, os jornalistas têm responsabilidade sobre o que fazem, portanto deveriam estar comprometidos com o rigor da informação. No entanto, trabalham de acordo com um determinado sistema, que lhes impõe determinadas rotinas e é muito fortemente marcado pela concorrência. Isso demonstra as dificuldades para o exercício do jornalismo. Além do mais, a luta pelo exercício do bom jornalismo é necessariamente política, devido ao confronto com interesses variados que marcam a produção e divulgação de informações. Não entendo quem seríamos "nós" por oposição aos jornalistas: nós, o povo? Os cidadãos em geral? Quem são esses cidadãos? O professor, a dona de casa, o pedreiro, o motorista de ônibus, o metalúrgico que acabou de perder o emprego, o balconista, o diplomata, o executivo de uma multinacional? Esses "cidadãos" não se equivalem, não têm o mesmo status nem o mesmo grau de formação e, portanto, não podem interferir da mesma forma na produção de notícias. Aliás, a rigor, não podem interferir de forma nenhuma, a não ser muito pontualmente, porque estão ocupados em suas tarefas cotidianas próprias à profissão que exercem, enquanto a profissão do jornalista é exatamente esta: exercer o jornalismo.
ES – Sobre o Caso Paula Oliveira, você relaciona as falhas cometidas na cobertura com a exigência de publicação em tempo real?
SM – Não, porque o Noblat, que tinha as informações, não as divulgou imediatamente. Ele mesmo diz que procurou certificar-se da história entrevistando a moça e pedindo as fotos. Não sei quanto tempo isso tomou, mas não foi como o caso do avião da Pantanal que teria caído em São Paulo, que o site da GloboNews publicou e logo todos os outros sites, inclusive o blog do Noblat, reproduziam. O problema, no caso da denúncia dessa moça, foi que o Noblat não verificou com o devido cuidado o que aquelas fotos podiam significar. Como as tomou como comprovação da violência, apesar de evidentes (para mim e tantos outros) indícios em contrário, achou por bem bancar a informação, e se deu mal. E os demais meios de comunicação embarcaram na história com a mesma excitação, e tudo virou a previsível bola de neve, envolvendo inclusive as nossas autoridades (que também têm a sua responsabilidade na história), até que o caso começou a se desmontar. Então, as exigências do tempo real podem ser apontadas a partir da denúncia "em primeira mão", mas essa denúncia, ela mesma, não foi fruto do "tempo real". O jornalista se precipitou, sim, mas teve tempo suficiente para apurar e refletir se aquelas informações eram indiscutíveis (que não eram, como sabemos).
Para esclarecer: a notícia inicial sobre a história da Paula Oliveira não resultou das urgências do "tempo real", como expliquei, mas o que decorreu daí - a reprodução dessa mesma notícia nos vários meios - sim. Aliás, o Ramonet classifica esse processo de "mimetismo midiático": um publica e os outros repetem automaticamente. E aí vira verdade, mesmo que seja mentira.


